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Molho barbecue - Marcelo. - Que foi? - Cadê o molho barbecue? - Ahn? - O molho barbecue. - Não tá na geladeira? - Não. - Então acabou. - Você comeu tudo? - Não sei. Posso ter matado o vidro. - Você não sabe que eu não como hambúrguer sem molho barbecue? E agora? - Sei lá. Come sem dessa vez. - Não, Marcelo. Eu NÃO como sanduíche nenhum sem molho barbecue. - O que você quer que eu faça? - Vai na rua comprar. - Tá de sacanagem, Sabrina? Eu estou comendo. Olha o sanduíche aqui no prato. - Foi você que acabou com o molho barbecue. Nada mais justo que vá você comprar. Na garagem, outro carro tranca a passagem. É preciso procurar o porteiro, seu Osmar, que tem uma verruga quase do tamanho de uma bola de gude perto do ouvido. Seu Osmar dá um muxoxo ao saber do contratempo. Em um sábado à tarde tem mais o que fazer. Pelo interfone, avisa o dono do outro carro, que leva quase meia hora para aparecer e tirá-lo do lugar. Quando finalmente deixa o prédio, estranha as ruas vazias. Não costumam estar assim. As ruas às vezes ficam quase vazias, de madrugada por exemplo, mas não sem nada nem ninguém à vista, muito menos num sábado à tarde. Sem trânsito, chega em pouco tempo ao supermercado. Ao contrário da rua, está lotado. Roda um bom tempo até achar um lugar no estacionamento. Pela porta de vidro vê a correria das pessoas no lado de dentro. - O que é isso? - Deu no rádio - responde o funcionário. - Disse que o mundo vai acabar. Todo mundo correu pra cá. - Mas como? - Não sei direito. Eu não estava ouvindo. - Sabe onde fica o molho barbecue? - Ahn? - O molho barbecue. - Ah. É naquele corredor ali. As prateleiras estão quase vazias, a multidão, formigas vorazes, corre de um lado para o outro procurando o pouco que sobra. Por milagre ainda tem molho barbecue. - Com licença? - Sim? - O senhor sabe como o mundo vai acabar? - Não. Só ouvi dizer. Deu no rádio, vim correndo pra cá. - E os outros? E as ruas, por que estão vazias? - Isso eu não sei. Se vira para todos. Um burburinho crescente. Apesar do nervosismo geral, aguardam pacientes na fila. Ninguém se dá conta, pelo menos em voz alta, da falta de lógica do momento. Se o mundo vai acabar, qual a utilidade de se entrar na fila ou mesmo pagar por qualquer coisa? O mais lógico é simplesmente irem embora. Sem aviso, começa a balbúrdia. A multidão avança entre os caixas, corre para a porta. Um policial chega, puxa a arma, tenta inutilmente pôr ordem. Todos fogem sem pagar. Marcelo também. - Taqui o molho barbecue. - Obrigada. - Você ligou a tevê, o rádio? - Não. Por quê? - Disseram que o mundo vai acabar. - O que foi? - O mundo vai acabar. - Quem disse? - Deu no rádio. - No rádio? - É. No rádio. - E como é que vai ser? - Ninguém sabia dizer. Só que deu no rádio. - E o que você fez? - Vim direto pra cá. Queria chegar logo com o molho barbecue. - Fez bem. Vamos comer? Tô com fome. O sanduíche já esfriou. - Vamos. - Marcelo? - O que foi? - Molho barbecue é a melhor coisa do mundo. # alexandre rodrigues | 6 de maio Comentários (0) | TrackBack (0) |
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