"O período de ouro do cinema nacional foi entre 1992 e 1994. Fernando Collor de Mello cortou o financiamento público e nenhum filme foi feito."
(...)
"No momento, 365 longas-metragens estão em produção no país. Se todos fossem realizados, daria para ver um filme nacional diferente por dia, durante um ano. NÃO CONSIGO IMAGINAR PERSPECTIVA MAIS ATERRORIZANTE DO QUE ESSA."
Veja
Edição 1908 . 8 de junho de 2005
Diogo Mainardi
Verbas em transe
"O governo federal deu 1 bilhão de reais à turma do cinema. Uma parte do dinheiro foi roubada, retornando por baixo do pano às empresas beneficiadas pelo subsídio fiscal. A outra parte do dinheiro teve um destino infinitamente mais sombrio: virou filme"
O período de ouro do cinema nacional foi entre 1992 e 1994. Fernando Collor de Mello cortou o financiamento público e nenhum filme foi feito.
De lá para cá, tudo piorou. O governo federal deu 1 bilhão de reais à turma do cinema. Uma parte do dinheiro foi roubada, retornando por baixo do pano às empresas beneficiadas pelo subsídio fiscal. A outra parte do dinheiro teve um destino infinitamente mais sombrio: virou filme. No momento, 365 longas-metragens estão em produção no país. Se todos fossem realizados, daria para ver um filme nacional diferente por dia, durante um ano. Não consigo imaginar perspectiva mais aterrorizante do que essa.
Gilberto Gil, na última segunda-feira, reconheceu que o setor cinematográfico enfrenta um "esgotamento do modelo, uma fadiga da estrutura". Ele afirmou que, embora o investimento de recursos públicos tenha crescido nos dois primeiros anos do governo Lula, a participação do cinema nacional na bilheteria caiu de 21% para 10%. Gil defendeu um "choque de capitalismo". Choque de capitalismo, no jargão do ministro da Cultura, tem um significado um tanto pitoresco. Não quer dizer eliminar o financiamento público. Pelo contrário: quer dizer aumentá-lo. De fato, a proposta de Gil é dar ainda mais dinheiro à turma do cinema. Ele acredita que o governo não deve bancar somente a produção de filmes, como fez até agora. Deve bancar também a distribuição e a exibição. O capitalismo, para Gil, funciona assim: o Estado paga tudo. Paga a produção do filme, paga a construção da sala, paga a distribuição da cópia, paga o bilhete do espectador. Se o mercado rejeita o cinema nacional, o capitalismo de Gil simplesmente abole o mercado.
Em 2003, foram lançados no circuito comercial 29 filmes produzidos no país. Outros vinte não conseguiram encontrar exibidor. Foram direto para a lata do lixo. Se o governo jogasse fora dois quintos da verba da merenda escolar, alguém já estaria preso. Como joga fora dois quintos da verba de filmes, ninguém reclama. O cinema nacional só existe porque é tutelado pela política. Produtores e diretores sabem disso. Tanto que sempre buscam a proteção de quem controla o dinheiro. Outro dia, um grupo deles se reuniu com José Dirceu. Gilberto Gil aprovou o beija-mão. Ele declarou: "Melhor que procurem muita gente. É bom. É uma forma de envolver a Casa Civil". Seria recomendável que produtores e diretores procurassem agora Delúbio Soares, Silvio Pereira e Mauro Dutra, dono da Novadata e amigo do peito do presidente.
Uma questão, porém, o governo jamais poderá superar: a ojeriza do espectador pelo cinema nacional. O brasileiro aceita que lhe tomem o dinheiro para financiar o parasitismo do meio cinematográfico. Aceita até mesmo que isso acabe envolvendo uma certa dose de roubalheira. O que o brasileiro não aceita, de jeito nenhum, é ter de assistir a filme nacional. Não adianta criar uma reserva de mercado, obrigando o exibidor a colocá-lo em cartaz. Não adianta baratear artificialmente o bilhete de entrada. O espectador que, uma vez na vida, caiu na cilada de ver um filme brasileiro, de Terra em Transe em diante, nunca mais repetirá o erro.
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