O Sebastião Salgado saiu na New Yorker. Sempre que lembro dele fico levemente perturbado. Não me contenho e esqueço na seqüência. Fico tentando entender por que um cara rico e bem sucedido fica indo pra Serra Pelada, Etiópia e lugares semelhantes para tirar foto de pobre sujo ou morrendo. Tento imaginar o que o move a fazer isso e não consigo ver algo de nobre. Nem alguma compaixão nem ausência de sentimentos, como respaldam alguns fotógrafos . Fico imaginando o Sebastião Salgado arrumando as malas, reunindo todos os rolos de filmes, as baterias, beijando os filhos e a mulher e dizendo Papai está indo trabalhar volta daqui uns meses. E ele voltando pra casa, revelando os filmes, publicando nas revistas cosmopolitas e ficando rico, famoso e respeitado. Fotografar já é cruel, ainda mais nesses casos. E não acredito numa possível desculpa humanitária de que as pessoas precisam ver essas coisas para se conscientizarem. Mas também nunca li nenhuma entrevista dele.
Sebastião Salgado me remete a uma cena que vi num posto de estrada. Era um ônibus lotado de jovens que iriam atravessar o Brasil para irem ao Forum Social Mundial. Fiquei imaginando o tamanho do espírito humanista que moviam esses jovens a trocarem uma viagem pra praia pra irem dormir em barracas, ficar sem tomar banho e usando boinas enquanto discutiam soluções para o mundo globalizado. Olhando pra eles, não conseguia ver resquício algum de espírito humanista. Pareciam mais integrantes de uma banda de reggae.
Não me sinto tão ridículo falando mal do Sebastião Salgado porque ele é reconhecido como ótimo fotógrafo pelo mundo inteiro. Tem uma técnica e talento excepcional que é impossível de negar. Mas não consigo engolir suas fotos. Estou pensando em fazer um ensaio fotográfico como trabalho de finalização de curso, por empolgação de um professor que entende e gosta bastante de fotografia. Fui dar uma olhada na biblioteca da faculdade pra ver o que já tinham feito de ensaios e lembrei de novo do Salgado. Os ensaios eram de moradores de rua, de pessoas no lixão, de cortadores de cana, e por aí vai. Pra mim esses temas já viraram sinônimo de preguiça e do estilo sambarilove de viver. Por isso a primeira coisa que disse ao meu orientador é que não quero retratar nenhum tipo de pobreza no meu possível ensaio. Ainda não sei sobre o que será (aceito sugestões), mas acredito que parti de um bom princípio. Um pobre quando vê um fotógrafo já deve saber que vai ser fotografado. Mas talvez eu esteja falando de um nicho bastante pequeno, só isso. Quase nunca fico vendo fotos de pobres, já vejo eles todos dias quando saio de carro. Só continuo não achando nobre fotógrafo ganhar dinheiro e notoriedade em cima de pobre. É pior que um patrão que explora seus funcionários.