Samjaquimsatva






The Brown Bunny

Passei a admirar ainda mais o Vincent Gallo como cineasta agora que consegui assistir o The Brown Bunny (2003). Seu segundo longa que escreveu, dirigiu, produziu, atuou, editou, fotografou, só não gravou a trilha, como no sensacional Bufallo '66 (1998). O filme foi super mal recebido em Cannes. Não deu pra entender por quê. Brown Bunny é mais um ótimo exemplo das infinitas possibilidades do cinema explorar as emoções. E se tratando de Vincent Gallo, é um cinema de linguagem única. Nesse filme, ele se concentra em explorar um elemento que incomoda grande parte das pessoas: o silêncio.

É um filme bastante lento. Os takes são longos. Os diálogos, pouquíssimos. Quando aparecem são sussurados, extremamente baixos, quase não dá pra entender. As músicas são apenas duas. E aparentemente não tem enredo – mas tem. Quem não está aberto para uma experiência diferente vai achar entediante, sem sentido e cheio de auto-comiseração. Mas não foi pra essas pessoas que ele fez o filme. Quem não tem paciência, nem suporta permanecer em silêncio, não vai ver nada acontecer.

Dá pra perceber como Vincent Gallo é obsessivo pela perfeição técnica. Os posicionamentos da câmera são muito precisos. Com ela parada na maioria das vezes, filma longos trechos de seu furgão preto na estradas. Algumas imagens interna feitas no furgão são bastante monótonas. Mas contrastam com as externas, com ótima fotografia.

Progressivamente, o silêncio vai sendo tomado pela tristeza dura característica das atuações de Gallo. A sensação é de que o nó em sua garganta vai se apertando cada vez mais. Uma cena como ele sentado imóvel numa cama de hotel é desconcertante. Alí, numa cena longa e parada, com ele de costas, a tristesa está em seu estado mais bruto, mas sem nenhuma expansividade vulgar. Gallo deixa tudo guardadinho dentro de si. Algumas vezes não aguenta e quase cai no choro.

Chloë Sevigny está perfeita no papel. Conseguiu captar direitinho o que o diretor quis. No hotel, com o Gallo sentado na cama, ela rouba totalmente a cena. A tão repudiada cena do boquete faz todo sentido no contexto do filme. E é bastante real, pra não dizer carinhosa. O diálogo final, quase inaudível mesmo com o volume no máximo, é uma pedreira. Ouvir Vincent Gallo murmurando com sua voz infantil de choro Why do you have to drink and take drugs, I don’t understand é de partir o coração. O silêncio que se extende daí para o final do filme é desconcertante. Chega a ser quase insuportável a sua permanência quando os créditos sobem.