Há uma semana eu entreguei o perfil para o Zequinha, grampeado dentro de um envelope amarelo e com os comentários em uma folha separada. Deixei com ele e disse que se quisesse responder para alguém, que escrevesse num papel que eu publicaria. “Tudo bem, cidadão”.
Ontem à tarde, quando dirigia em direção à casa da minha vó, decidi virar na rua que vai para o cemitério. Sabia que de manhã ele tinha trabalhado, teve um enterro de uma pessoa muito conhecida da cidade. Imaginei que ele estaria lá. Estava. Estacionei o caro e logo na entrada vi ele descendo a rampa que corta o cemitério inteiro. “E aí, seu Renato Parada”.
O cemitério estava completamente vazio - de gente com vida. Sentamos numa lápide e conversamos amenidades. Perguntei como foi o enterro de manhã. Difícil, porque era muita gente e ele tinha que caminhar no meio da multidão carregando o cimento. Falou que tinha mais carro do que no dia de finados. Levantou e foi me mostrar aonde tinha sido o enterro. Eu não sabia que as coroas de flores eram colocadas em cima da lápide. Tinha uma montanha delas uma em cima da outra. Uma imagem bela. “Tem uns três mil reais de flores aqui”, calculou.
Um outro cidadão aparece por lá. Parecia chegado do cemitério. Se aproximou convidando o Zequinha pra ir no boteco da dona Aparecida. Ele nega, dizendo que tem que resguardar seu fígado para quinta-feira. Pergunto pro sujeito se ele trabalha no cemitério também. “Eu não, eu tenho medo disso aqui”. Zequinha dá uma risada soltando uma baforada do cigarro e me explica que “esse sujeito tem mais de vinte anos de cemitério. Tem mais de 1.500 apelidos. Magrinho. Zé do Caixão. Necrotério. Funerária, quais são os outros, heim?” Magrinho ri com um olhar maníaco. Parece ter problema mental por causa de seu olhar. Ficava me olhando com a mesma expressão quando falava alguma coisa. Como se esperasse que eu dissesse alguma coisa que lhe causar satisfação. Não digo nada. Vejo que ele não é doente mental por causa da quantidade de detalhes e informações ele dizia enquanto conversa.
Perguntou pro Zequinha se ele tinha ido no necrotério hoje. Se tinha alguma roupa nova lá. Zequinha disse que tinha um sapato, se ele quisesse podia pegar. Não entendi. Ele me explicou que as roupas dos defuntos ficam no necrotério e alguns funcionários pegam pra eles. Magrinho olhou pra mim, agarrou sua calça jeans na altura das coxas, a sacudiu e disse “Essa calça jeans aqui é daquele homem que entrou debaixo dum caminhão em Guará.” Pegou no cinto que segurava a calça larga, balançou e disse “Esse cinto aqui é daquele que foi atropelado e esfaqueado na Cohab”. E deu uma risada assustadora, mostrando seus dentes tortos e cariados na frente. Zequinha me mostrou o cinto que usava e riu.
Magrinho não trabalha no cemitério, mas convive com os coveiros, é o seu mundo. “É o maior conhecedor de cemitérios e funerárias da região. Conhece todos os nomes dos donos de funerária da região”, Zequinha me contextualizou. Trabalhou em todas elas, é conhecedor profundo de todos os detalhes da preparação de um corpo, até da quantidade certa de argamassa necessária para fechar um túmulo. Às vezes quando o trabalho está pesado no cemitério, ou quando a coisa está muito feia, ele dá uma ajuda. Perguntei como assim “quanto a coisa está muito feia?” Zequinha deu exemplo desses dias atrás, quando tiveram que abrir um caixão que tinha o fundo de zinco, e não de madeira. Os líquidos do corpo não vazaram pela madeira, se acumularam ali. Nesse caso o Magrinho entrou em ação.
De tantos detalhes que me contavam, fiquei curioso de ver um dia eles reabrindo algum caixão. Disse pra eles me avisarem quando forem fazer isso porque eu queria ver. Disseram que geralmente só tá a ossada, pedaços da roupa, cabelo, nada demais. Mesmo assim disse que minha curiosidade era pra ver a disposição disso no caixão. Zequinha tinha aberto um hoje, porque a irmã do esqueleto iria ser enterrada no mesmo local em que ele estava. Então eles pegam o que ficou dentro do caixão, colocam dentro de um saco preto de lixo, e depois deixam o saco ao lado do novo caixão. “Vamos mostrar a ossada pra ele, Zequinha”.
Foi retirando os tijolos soltos da entrada do túmulo e pegou o saco de lixo preto. Desfez o nó e cheguei mais perto pra ver. Eram ossos enormes e bem em cima o crânio, com uma ponte dentária de metal dentro da onde era a boca. “Aí o que todo mundo vira, ó”, disse o Magrinho, sem alterar seu olhar maníaco, que impressiona e causa medo sem ter a intenção. Repetiu com uma pitada de maldade: “Olhai o que o negão virou, ó. Eu que preparei ele pro enterro.”
Me marcou a cena do saco de lixo preto sendo aberto. Foi como se aquelas duas pessoas estivessem revelando um grande segredo pra mim. Uma verdade que poucos tinham acesso. Estavam me revelando qual seria o meu futuro. Me dando a prova irrefutável, me deixando sem ter o que falar. Foi impossível eu não me reconhecer ali dentro daquele saco.
Magrinho foi me contando mais alguns detalhes do processo de preparar um corpo. Da máquina que retira o sangue até da aplicação de formol. Ouvia sem muito interesse os detalhes que ele listada. Não respondi nada depois que ele parou de falar, nem olhava pra ele enquanto caminhávamos de volta para a rampa principal do cemitério. Só olhei pra ele depois que ficou em silêncio e vejo que ficou empolgado falando daquilo tudo.
Permaneci sem dizer nada. Então ele falou expressão o maior contentamento do mundo: “Mexer com defunto é bom demais.” Com um grau de excitação e sinceridade que só consegui fazer um paralelo com a felicidade de um macho ao copular com uma mulher maravilhosa que ele desejava por muito tempo.
Magrinho pegou a bicicleta e disse que ia embora. Me convidou pra quinta-feira ir no boteco da dona Aparecida, pra comemorar seu aniversário. Zequinha confirmou que iria sem falta, eu disse que estaria viajando, caso contrário iria. Que figura, heim, comentei com o Zeca. “O Magrinho é o único dos filhos que não tem nome bíblico, o único que não freqüenta igreja, só boteco.”
Ele mostrou seu perfil para um monte de gente e me contou as diferentes reações das pessoas as lerem. Deu também várias dicas de estilo e de apuração, que me deixou impressionado. Ele ficou bastante sério e começou a listas o que podia ser melhorado. Notei como ele se resguarda para não conversar nesse nível mais profundo, mostrando o quanto ele conhece e tem noção dessas coisas. Imaginei que ele deve guardar muito para si mesmo suas sensações de todo dia trabalhar vendo aquelas ossadas. Não sei se ele tem percebe isso. Mas quando começou a falar, mudou toda sua postura, seu olhar, seu tom de voz, que ficou mais delicado e mais baixo. Imagino que não queria ser mal educado fazendo as críticas. Ele gostou muito. Comentei que quando reli achei bastante incompleto. Ele concordou, mas que aquilo já era um bom retrato de sua personalidade. Disse que daria pra fazer outro até, uma segunda versão, tendo tempo que quisesse para escrever e conversar. Ele me sugeriu que para isso seria melhor que tocássemos cartas, que assim conseguiria passar mais informações. Brinquei que não estou muito a fim de escrever um livro sobre ele. Ri mas disse que era uma possibilidade, que poderia ser projeto legal.
Comentei dos trechos que escrevi propositalmente para ele não gostar. Ele reconheceu esses trechos, mas só disse que estava bom, que todas as pessoas que lerem elogiaram o texto. Mas focou mais energia pra fazer as críticas. Perguntei se teve vontade de responder algum comentário. Ele disse que sim, que já tinha as respostas na cabeça mas que teria que reler de novo para passar pro papel. Iria fazer isso e me telefonar avisando. Talvez hoje ou amanhã eu tenha as respostas já. Não faço idéia do que vai ser. Pode ser uma coisa genial ou apenas uma palavra para cada resposta. Mas ele prometeu de me entregar e prometi de transcrever elas aqui. “Isso vai virar um chat com o coveiro”, brincou. Me perguntou quem era Bebel e me disse qual a resposta ele tinha bolado para o Pellissari – ele diz assim, com dois essês. Trancou o cadeado do portão do cemitério e lhe dei carona até sua casa. Estacionei em frente e sua mãe estava em pé na frente da porta. Ele desceu do carro e ela assustou: “Ué, de onde você veio, Zequinha?”