Samjaquimsatva






Agradável piscina do clube

O calor está batendo recordes esses dias. Vim pra casa na tentativa de fugir do calor. Consegui em parte. Tenho nadado todos os dias. De manhã e à noite. Está sendo bom.

Hoje de manhã foi razoável. Muito sol e dor nos braços. Ontem fiquei treinando borboleta. Forcei demais estudando como deixar bem sincronizado a golfinhada (movimento em onda feito por todo corpo) e a braçada. Duas observações que fiz: 1) o salto tem que ser pra frente. Estava subindo muito alto e não saia do lugar. Tem que ser o meio termo. Pra cima e pra frente, numa diagonal. 2) Abaixar a cabeça na hora da braçada facilita muito. Dá pra levantar um pouco pra respirar, mas na seqüência o melhor a fazer é abaixar tudo, quase encostando o queixo no peito. Com a cabeça baixa, os braços conseguem fazer o movimento com mais facilidade. Ainda tá difícil nadar borboleta numa boa, é desgastante, requer muita força. Hoje de manhã senti o treino de ontem. Só no braço. Então nadei de leve.

Hoje à noite a temperatura da água estava imperdível. Eu sabia, eu sabia. Choveu à tarde. Chuva curta mas forte. Meu pai, que lavava a cortina, decidiu até tomar chuva, até que sentiu que os pingos estavam ficando meio fortes. Olhou pro chão e viu as pedrinhas de gelo. Quando chove assim, a água fica melhor. Não fica mais quente, fica mais... sei lá, macia. Fui com o intuito de tomar sauna e depois dar um pulo na piscina pra refrescar. Mas é um insulto dizer que ela só me refrescou, ela me acariciou, de tão agradável que estava. Mas antes eu fui tomar sauna, meio que pra tirar a inhaca do corpo.

Só consigo tomar sauna à vapor. Abri a porta de alumínio e entrei. De início quase queimou a pele (lembrei de pururuca de porco) mas depois ficou um calor agradável e relaxante. Os poros abrem e a circulação aumenta. Os chefes de família que freqüentam a sauna discutiam futebol. O Santos. O Corinthians. O Palmeiras. Vamos apostar uma caixa de cerveja. No meio da algazarra futebolística, tenho um delírio achando que escutei alguém dizendo a palavra “Papa Nicolau”. Nenhum contexto para isso. O presidente do clube chega e todo mundo começa a sacaneá-lo, só pra ver ele brabo. Ele xinga – não dá pra saber se é sério ou se é de brincadeira fingindo ser sério. Fico estentendo a perna pra perto do buraco onde sai o vapor, só pra sentir o queimão. Não agüento mais e saio, fumaça emana do meu corpo, sou um carvão vivo. Tomo ducha e vou pra piscina.

Vou andando calmamente até a borda e dou o que chamo de ponta tartaruga. Não sei porque dei a ponta esse nome, que é feita sem esticar os braços na frente, caindo apenas de cabeça. Parece mais com pingüim, talvez. Deixo o corpo afundar o máximo possível e fico imóvel, pro ar de dentro dos pulmões me colocar de volta pra cima. A piscina é semi-olímpica, vinte e cinco metros. O engraçado é sua profundidade. Na parte mais rasa, fico só com a cabeça pra fora d’água. Deve ter 1,80m no raso e uns 4 ou 5m no fundo. Dá pra sentir a pressão querendo afundar o ouvido. É dito que antigamente ter uma piscina bastante funda era sinal de status para o clube. Nas academias de natação hoje, as piscinas são todas rasas, quase consigo caminhar por ela toda, e o fundo agora é no meio. Às vezes eles exageram, nadei em uma que no raso, nadando craw, se esticasse o braço, conseguia relar a o dedo no chão. A do clube, quando esfria, demora meses pra esquentar de novo. Uma vez pulei e quase congelei, minhas rótulas tremiam depois. A rasa da academia fica quente muito rápida, e quando faz calor, vira um chá, fica horrível para respirar. Prefiro a funda, não sei porque, é melhor pra nadar e mais agradável para refrescar. Hoje, depois da chuva, a temperatura estava absolutamente perfeita. Ela estava vazia, como sempre, e muito limpa. O funcionário do clube se ofereceu para acender as luzes mas eu disse que não precisava. Fui pro raso e fique lá quieto e indignado por aquela água estar tão boa. Quando a água parou de se mexer, comecei a nadar cachorrinho muito lentamente. Queria ficar vento aquela água toda ao meu redor mexendo o mínimo possível. Fazia o mínimo de força possível. É incrível a facilidade que é nadar, ou melhor, não afundar. Fazia os movimentos mais suaves e estritamente necessários para não afundar a cabeça. Me concentrando em sentir a maciez daquela quantidade enorme de água. Cheguei na outra borda e ela estava paradinha. Afundei a cabeça, soquei com força o pé na borda e fui de torpedo em direção a outra borda. Sem querer atravessar tudo, estava de boa, então subi pra respirar duas vezes. Parei e fiquei de jacarezão, só com o nariz pra fora, apoiado na borda. Resolvi fazer mais 25m de costas, o mais lentamente possível, parando no meio da piscina pra ficar boiando e vendo o céu escuro. Quase não fiz isso porque é algo meio clichê demais, mas ora, que diabos de ficar preocupado com isso numa piscina daquele tamanho e totalmente vazia. Apesar de gostar de fazer isso várias vezes, só hoje fiquei prestando atenção na escuridão das nuvens, nos tons de preto, dá pra ficar abismado com tanta cor diferente naquela imensa escuridão. Com os ouvidos dentro d’água, parece que a visão fica mais aguçada pra perceber essas coisas e divagar. Fiquei vendo bastante e fui pro fundo. Voltei pro raso nadando costas normalmente. Soltei um peido e a bolha me subiu pelas costas me fazendo cócegas. Mas só conseguia sentir o cheiro do cigarro de corda do porteiro da sauna. Fui em passos de astronauta até o meio da piscina. Fiquei afundando e subindo. Certa hora, minha respiração estava tão calma que ficava muito tempo submerso. A água era tão mais agradável que o ar que em décimos de segundo lá embaixo quase esquecia que alí não era o meu habitat natural. Afundei mais e sentei no chão da piscina. Depois deitei. Deitado deu um pouco de medo de ficar tanto tempo lá assim. Parei. Fui pro fundo e voltei pro raso mergulhando com a braçada de peito. Fiquei escutando o barulho da articulação do meio ombro raspar enquanto empurrava a água pra trás. Fiquei pensando que ele não é um instrumento tão perfeito assim. Era meio agressivo o barulho, um tipo de estralar que acompanhava o movimento inteiro. Crrrroookkkk. Ao mesmo tempo que ouvia isso passei a ouvir meu coração. Tutotutotuto. Parecia que ele pulsava em minha orelha, por causa da acústica dentro d’água. Voltei pro raso. Respirei e deu um tiro de borboleta, só pro coração disparar um pouco. Estava me enchendo aquela calmaria toda. Voltei forçando craw e ao bater a mão na borda da piscina me projetei com força pra fora d’água e sai andando pra sauna. Tomei mais uma e voltei pra piscina. Voltei pra sauna e depois voltei pra piscina de novo. Chegava a ser triste pensar em ir embora, porque sentia que amanhã a água não estaria tão agradável que nem hoje. Não seria possível, não seria certo amanhã ela estar tão boa assim.

No vestiário os pais de família e um juíz de Direito discutiam futebol. Um fazia a barba na pia. Outro secava no meio dos dedos do pé. Um se sentia pessoalmente prejudicado pelo juíz do jogo Corinthias e Santos. Criticavam a Vila Belmiro, o Luizão etc. O porteiro descascava o fumo de corda em sua mão. Ninguém quase nunca o cumprimenta. Sempre o cumprimento. Quando ele me vê, de certa forma fica esperando pelo cumprimento. Ontem e hoje deixei ele esperando pelo cumprimento. Não falei nada. No bar do clube, pais de família tomavam cerveja e comiam um aperitivo. Conversavam alto e riam enquanto espetavam os aperitivos. Tinha quibe, frito naquele hora, quase pedi, mas lembrei da comida boa de casa. A piscina tava vazia e escura. A água estava muito boa, a água estava imperdível, mais que agradável, era quase uma forma de carícia, um veludo líquido, silenciosa, dava pra ouvir o barulho do ombro rangendo, do coração batento, do ar arranhando a minha precária vias respiratórias, da água saindo do fundo dos ouvidos, das risadas dos pais de família no bar, na sauna e na sala de sinuca. Dava pra sentir sendo natural estar submerso e medo de ficar deitado com o peito no azuleijo lá no fundo. Muito bom. Estava muito boa a água da piscina hoje.