Samjaquimsatva






O pedreiro e as crianças

Fui abrir o portão pra sair com o carro e em frente a casa da frente tinha um pedreiro parado, apoiado em uma pá, na beira de uma grande massa circular de cimento, olhando para a outra esquina, onde tem uma creche, sem paredes, cercada só com grades de arame, supostamente pras crianças verem o movimento da rua e pra quem está de fora ver o movimento das crianças brincando lá dentro, as quais ouço os gritos todos os dias na parte da manhã e na parte da tarde, sons realmente agradáveis, que apesar de serem apenas gritaria, não incomodam, agradam, mesmo ouvindo todos os dias, é um belo som ambiente, meio hipnotizador, com uma constância que parece que não vai acabar nunca, e quando acaba, nunca percebo naquele exato instante, só depois de um tempo me dou conta.

O pedreiro paralisado vendo as crianças brincando de longe, quase que escondido, me deixou também paralisado, com o cadeado na mão e com o portão aberto, paralisado vendo o pedreiro paralisado vendo as crianças brincando na creche, em cima das gangorras, balanços, escorregadores, entre outros brinquedos. A massa de cimento estava prester a ficar pronta, precisava de mexer só mais um pouco. O meu carro estava ligado, a porta aberta, minha mochila pesava o ombro direito. A massa de cimento sendo misturada parece ser muito macia, parece massa de bolo, quando criança gostava de ficar vendo ela ser preparada, até pedia pra mexer, até que vi que não era tão macia e fofa quando parecia.

Mesmo sem ter noção da riqueza e da satisfação que gera ter a capacidade de parar um serviço pesado como aquele pra ficar vendo crianças brincando na creche, ele olha pra mim, percebendo que eu estava alí, curioso para ver quando tempo ele ia ficar paralisado vendo as crianças brincando, sorri e diz: Os problemas não existem nessa idade, né? Eu só digo: Verdade.