Samjaquimsatva






Rindo da própria desgraça

Hoje à tarde fui buscar minhas roupas na lavanderia. Enquanto uma das passadeiras foi no posto arranjar meu troco, comentei a amenidade de como dinheiro vai que nem água. “Eu que o diga”, ela retrucou. E me contou numa boa que três homens armados entraram em sua casa ontem à noite e levaram tudo. Parecia que até era mentira, por causa do sorriso dela.

A primeira coisa que eles pediram foi dinheiro. A segunda, armas. “Não sei se por sorte ou por azar, eu tinha bastante dinheiro em casa, já que ontem tava chovendo e não levei o dinheiro da lavanderia pro banco”, ela contou. “Dizem que se você tá sem dinheiro eles ficam mais agressivos”. Ainda sorrindo e bastante descontraída, contou como eles reviraram a casa inteira. “Jogavam as roupas tudo pro chão e andavam por cima delas numa boa”, e imitou eles andando. Ela olhava para uma passadeira e ria. Estranhando seu bom humor, retruquei: “Bem, pelo menos a senhora não está chocada nem triste por ter perdido o dinheiro. Está trabalhando hoje, com um bom astral, nem parece que aconteceu nada. Admiro isso.” Com um leve desdém, me contou que já foi assaltada cinco vezes. “Só meu marido que ficou nervoso, ele não tá nem querendo mais dormir lá.”

Nos outros assaltos, os bandidos também pediram por armas. Levaram o 38 de seu marido uma vez. Depois disso, ele desistiu de ter arma em casa. E ela ainda achava graça. Ouvindo os detalhes, percebi que estava mais chocado que ela, já que moramos relativamente próximos. “Agora é engraçado, mas na hora é horrível.” Que mulher forte, pensei. Trabalhando numa boa depois de ficar três horas amarrada vendo assaltantes levarem mais de mil reais e detonarem sua casa toda. Peguei minha sacolona e agradeci. Ela pegou um cobertor e começou a sacudir. Seu gato virou o rosto pra ver, deitado numa poltrona de coro larga que parece ser só dele.